Sobre a vida, a morte e o tempo.

“Imagine que você está num momento muito difícil da sua vida, que o faz questionar qual direção tomar, e DEUS te envia uma carta. E eu pergunto, o que você gostaria de ouvir sobre si mesmo? Qual o conteúdo da carta que gostariam de receber?”

Essa foi a pergunta que uma amiga pediu para que respondêssemos para ajuda-la com uma trabalho. E fiquei impressionada como uma simples questão, aberta para qualquer resposta, ou inclusão em qualquer ambiente, e sem nenhuma necessidade, da minha parte, de ser respondida, pode ter mexido tanto comigo. Eu nem sei se acredito em Deus, mas se eu recebesse uma carta, eu sei o que eu ia querer ler.

Semana passada circulou na internet a carte de despedida de Oliver Sacks. Professor, escritor e psiquiatra ele se despede das obrigações da profissão, e de alguma forma de qualquer outra obrigação, após ser diagnosticado com câncer terminal. Como ele mesmo escreve, ele foi um dos 2% dos azarados em que o tumor se espalhou (metástase).

A carta é libertadora. É de quem viveu 81 anos bem vividos. De quem não tem arrependimentos, de quem está em paz e satisfeito com a vida que levou; “amou e foi amado”, e tem plena consciência de como quer viver o resto da vida que lhe resta. Ele não nega o medo, mas o sentimento predominante é a gratidão.

Eu não sei lidar com a morte. Não é o medo de morrer. É o medo do fim. De ações incompletas, de planos só no papel, e sem querer ser cliché, eu tenho medo do esquecimento.

Um dia depois do falecimento da minha avó, um amiga de trabalho, um ano mais nova do que eu, também faleceu. Minha vó, já idosa e com um histórico clínico preocupante, entrando e saindo de hospitais, mas considerado estável, morreu em casa. Minha amiga, mãe de uma menina de nem um ano, morreu de um câncer que a devorou em 5 meses.

A gente aprende a aceitar melhor a perda das pessoas mais velhas por achar que elas viveram mais e melhor que as mais novas.  Foi difícil perder minha avó, um mulher forte que eu admirava muito, mas foi muito mais questionador perder minha amiga. Eu que já não acreditava em muita coisa, passei a acreditar mais ainda que a vida é agora e o quanto “vamos deixar pra depois” é questionável.

Eu que planejo, que prevejo, que não improviso, nunca vou estar preparada. Um dia, quem sabe com 81 anos, quero pode ter essa gratidão pela minha vida, minhas escolhas. Hoje sou grata, não há arrependimentos pois tudo que fiz me trouxe aonde estou. Porém existe uma ordem de acontecimentos nada vida, da qual não consigo abrir mão. Há lugares que quero ir e um filho que quero gerar e não consigo ligar o “foda-se” e fazer tudo agora.

Eu tenho minhas crenças e algumas são de que nada acontece por acaso e que tudo tem o seu tempo, caso você concorde ou não. Então, num momento de dúvida, de indecisão, eu não ia querer Deus me dizendo que caminho ir, até mesmo porque eu acredito em livre arbítrio. E nem ia precisar ler que tudo eventualmente vai dar certo, porque eu acredito que tudo da certo do final. O que ia querer é saber que tenho tempo. E aqui copio exatamente o que escrevi para minha amiga: tempo sentir a dor e depois tempo pra tentar de novo; pra errar e aprender mais; tempo pra ainda conhecer muitas coisas. Quem sabe até não ter tempo: “garota! acorda que se não vai só ser isso! Foca no que você acha que importa e esquece o resto.” Antes tarde do que nunca.

Acho quase impossível viver um dia após o outro e esperar ver no que vai dar, mas também não da pra viver planejando todo dia da vida. Desse jeito ou temos um vida sem objetivos ou uma vida cheia de frustrações. Temos que encontrar o nosso equilíbrio entre tudo e nada. Entre viver para o futuro e só por hoje. Não podemos pensar a vida como uma única parábola, e talvez valha a pena de tempos em tempo para e refletir sobre o que tá bom e o que não tá e mudar. Por nunca é tarde para mudar e o sempre é uma falácia. Não importa no que você acredita que a felicidade seja momentânea, um caminho ou um lugar. É importante identificar a infelicidade e a  insatisfação. Cuidado porém com a insatisfação crônica e com a felicidade inatingível.

Esse post foi bem filosófico, mas viver longe dos amigos e dos filhos dos amigos, e dos sobrinhos, e dos pais, faz vocês pensar muito tempo e no que você faz com ele. Quando estar longe não é escolha, mas é uma imposição espacial, você pensa muito sobre o tempo em que se estava perto ou que queria estar.

 

Ouvindo:  Bon Iver For Emma, Forever Ago

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Um comentário sobre “Sobre a vida, a morte e o tempo.

  1. Eliana Sa Barretto disse:

    Gaby, lendo o que você escreveu me lembro muito de quando tinha a tua idade…
    Pensava igual a você e tinha muito medo da morte, do esquecimento como você falou… O medo do “nada” era pior que tudo…
    Mas sempre acreditei em D’us tendo épocas em que eu não acreditava… Eu mesmo sem acreditar não conseguia achar que o mundo foi feito por acaso… então olhando esse mundo maravilhoso em que nada é igual tive certeza de que existia algo que era maior do que minha mente podia entender e aí começou minha busca por D’us…
    Andei de um lado para outro buscando e errando até que tive plena certeza de que existe sim um D’us que está esperando que o busquem e quando o achamos aí você fica totalmente preenchida e não se questiona tanto nem tenta projetar sua vida muito…
    Cheguei a conclusão de que não sei nada e nem sei o que é bom para mim…
    Você aprende que pode fazer mil projetos mas na realidade a maior parte deles não acontece…
    Que o melhor é não ter tantas expectativas e deixar que a vida aconteça… D’us sempre fará o que é melhor para você…
    Com a idade você vê tantas pessoas amadas partirem desse mundo ou para outros lugares que percebe que nada está sob seu controle e que o máximo de livre arbítrio que você tem é escolher a roupa que vai usar… E aí você passa a viver o hoje pois é tudo que você tem!
    O amanhã não chegou e o ontem já foi… Então o que resta? Esse momento de agora pois daqui a pouco também será passado…
    Na minha idade o medo da morte vai diminuindo e as vezes até chega a ser atraente…
    A certeza de que não é só isso aqui cresce quanto mais nós chegamos a D’us e então planejamos um pouco mas sabemos que não controlamos NADA!!
    Por isso minha querida rezo para que você um dia possa encontrar a D’us e ter a certeza de que tudo está sob Seu controle e isso é bom!!’
    Temos dias bons e dias maus mas assim é a vida e tenha em mente que cada um colhe o que planta!
    Mas que ter certeza de que nada escapa da vontade de D’us é muito bom!
    Mas você está no caminho certo e um dia vai ver que eu tinha razão!
    Bjss e seja muito mas muito mesmo FELIZ!!

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