A carta e a apelação.

E numa bela manhã fui na caixa do correio verificar se algum amigo havia me mandado um cartinha à moda antiga e acabei encontrando algo muito pior. Na hora meu coração pulou, um sorriso apareceu no meu rosto, pois assumi que no envelope timbrado da UDI vinha, finalmente, meu visto. Ledo engano.

Esperei chegar em casa e sentar no sofá para abrir o envelope e naquele momento, todo o meu pouco norueguês desapareceu do meu cérebro. Eram 4 páginas, frente e verso, completamente escritas em norsk. Meu coração acelerou mais ainda porque não me pareceu certo usar tantas palavras pra dizer “bem-vinda à Noruega”.

Nem acreditei quando traduzi a frase em negrito e ela dizia: Seu visto foi negado. Você tem que deixar o país em 3 semana. Faltou só o “beijos e tchau”. Tremia e soluçava e na minha cabeça só aparecia a minha própria imagem de mala e cuia voltando pro Brasil. Era a imagem da derrota de sonhos e desejos, de insucesso, de incapacidade e principalmente de não ser bem-vinda em algum lugar.

Tive que segurar todos esses sentimentos e tomar coragem de ligar para o Bjørn, que estava no trabalho, e dar-lhe a notícia. “Oi, tudo bem? Então, meu visto foi negado e tenho que ir embora em 3 semanas”. Só que com muito mais choro e soluço. Definitivamente um dos piores dias da nossa vida. Até Bjørn chegar em casa eu só chorava e olhava pro papel sem nem entender direito o que tinha acontecido.

Passado o choque, chegava a hora de ser prática e precisa. Ligamos para um amigo da família, que, além de ser norueguês, é a pessoal mais calma do mundo. Ele foi quem nos guiou/apoiou ao longo de todo o processo. Eu digo que se ele fosse um personagem, ele seria o Yoda. Ou seja, o mestre estava do nosso lado.

Explicando o problema e como resolvê-lo.

Quando você aplica aqui para o visto de reunião familiar, sendo você brasileiro e seu marido/mulher norueguesa, dentre os inúmeros documentos que você tem que entregar, (veja aqui a lista), talvez o mais importante seja a comprovação de que o seu “patrocinador” ganhou o mínimo exigido pela UDI no ano anterior.

You must have an income of at least NOK 252 472 per year pre-tax and have earned at least NOK 251 856 in 2014 pre-tax. You cannot have received social security benefits during the last 12 month.

No meu caso, apliquei no meio do ano e por isso não tínhamos a declaração de imposto de renda brasileira do ano de 2014. No lugar entregamos uma carta do antigo trabalho do meu marido declarando os rendimentos. Aparentemente a UDI resolveu declarar esse documento. Assim nos enquadramos no quesito “você não tem dinheiro o suficiente para morar aqui, mesmo que você já esteja morando aqui há um ano”.

Entre as 4 páginas, frente e verso, dizia que se seu pedido foi negado, você pode apelar à decisão. A UDI vai rever seu caso e então você pode ficar no país até que o novo pedido seja processado.

When you appeal, you must explain why you believe that the first decision you received was incorrect.You must have new information or documents in your case. If you do not, your appeal will most likely also be rejected.

Já com a declaração de imposto de renda brasileira e norueguesa em mãos, nosso amigo norueguês nos ajudou a escrever um linda e breve carta em norueguês enumerando todos os novos documentos e porque eles não foram incluídos antes.

Durante esse processo, consideramos consultar um advogado para dar um opinião legal sobre nosso caso, pois muitas dúvidas surgiram como “era possível combinar os rendimentos dos dois países? deveríamos colocar mais uma pessoa como “patrocinador”? só esses documentos seriam suficientes? Porque a UDI não reconheceu o documento previamente anexado?”

Ninguém sabia um advogado para indicar. Consultei muitas brasileiras e noruegueses e a resposta ou era “nunca precisei de um” ou “fale diretamente com a UDI” ou ainda “você vai gastar dinheiro á toa”. E acho que essa é a verdade aqui, ninguém precisa muito de advogado, todas as informação estão a sua disposição.

Confiante, mas com frio na barriga, em uma semana entreguei a carta na polícia aqui e me vi esperando mais uma vez pelo visto.

Meu caso é muito comum. Muitos,  de várias nacionalidades, têm o visto negado por não terem como comprovar os rendimentos que a UDI considera mínimo. Dinheiro na conta ou na poupança não conta. Não importa também o quanto VOCÊ ganhou. Ou seja, ao longo do ano anterior, seu “patrocinador” não tem como comprovar que você ganhou o mínimo, nem perca tempo aplicando, pois é HORRÍVEL receber uma carta dizendo que você tem que deixar o país. Deixe seu marido ir na frente e aí perto dos 12 meses você muda e aí aplica.

E vale lembrar que esse “mínimo”, apesar de ser um montante quando convertido para real, ele não é muito comparado com a média ganha pelos noruegueses. Se você é norueguês e ganha isso, você pode aplicar para receber uma ajuda do governo, porque eles sabem que isso não é muita coisa.

Finalmente, mais ou menos dois meses depois, recebi, agora via e-mail, um breve texto, que apesar de não pedir desculpas nem de dizer seja bem vinda, dizia que meu pedido de residência tinha sido aprovado. Chorei de felicidades, ganhei flores, espumante e fui comemorar!

No próximo, conto como um e-mail vira um cartão de permanência, CPF e conta no banco.

* todos os texto em inglês foram retirados do site da UDI.
** vale lembrar, sempre, que esse é o MEU caso. Não é verdade única nem é uma regra de como você tem que aplicar para o seu visto.
Imagem

364 dias depois

Há exatos 365 dias atrás eu entrava no carro em direção ao Aeroporto Internacional do Galeão, com duas malas de 32kg, rumo à Noruega, deixando para trás amigos, família, sobrinho na barriga da mãe, o sol, o calor, e mais um monte de coisas que, mesmo depois de 12 meses, ainda me fazem falta.

@alexatala tô chegando pra festa!! Bj

A post shared by Gabee Passos (@gabeepassos) on

Não foi fácil e ainda não é fácil viver aqui e escolher estar aqui. Entretanto é maravilhoso poder viver em outro país, aprender outra língua, viver em outra cultura, conhecer novas pessoas… é um mundo se abrindo diante dos meus olhos.

Bergen com toda sua chuva me fez entender que existe vida em dias nublados, que não é porque está chovendo que vai ter muito trânsito e que tudo ainda vai estar funcionando como se fizesse 40ºC. Aliás, Bergen me fez esquecer o que é sensação térmica de mais 30ºC e fez acreditar que 25ºC, quando faz, é verão.

Aprendi também aqui que não precisa ser uma cidade grande como São Paulo para ter shows legais ou programas culturais interessantes. Basta oferecê-los que as pessoas irão. E é impressionante como as pessoas vão, mesmo com chuva! Deveriam fazer uma pesquisa sobre acontecimento único.

Mas esse post é uma celebração ao  Brasil e de como certas coisas fazem parte da cultura local e que essas coisas são difíceis de importar.

Aqui vai então a minha lista de coisas que sinto falta no Brasil/Rio de Janeiro e que vou fazer assim que tiver a oportunidade de visitar. A maioria envolve comida, eu sei, mas para mim comida tem um significado maior e muito emoção e memória ligada à ela.

Acho que minha “comida” favorita é pastel, mas o que eu mais sinto falta aqui não é de pastel, mas de acordar aos sábados e ir na feira da General Glicério, comer um pastel de feira e tomar um caldo de cana com limão enquanto penso no almoço de sábado: uma boa paleta de porco, sobre-coxa de frango ou melhor ainda, uma boa muqueca de namorado ou um ceviche.  Sem dúvida umas das minhas melhores memórias de quando morava em Laranjeiras e só gringo pode pensar em sugerir um passeio no Fisktorget daqui como substituto. Apesar de ser um ponto turístico, o mercado de peixe daqui é para turista e nem tem um terço das variedades que encontramos nas nossas feiras. Não estou dizendo que é ruim, só é diferente.

Amores na feira

A post shared by Gabee Passos (@gabeepassos) on

Já que estamos falando de feira, outra coisa que sinto falta aqui são nossas frutas. A globalização tornou possível o acesso à frutas tropicais, mas aqui só tem um tipo de banana, a manga não tem cheiro e é impossível fazer um mousse de maracujá aqui. Algo tão comum para mim era comer o mousse de maracujá feito à partir do suco concentrado. Só vi maracujá pra vender uma só vez, junto com as frutas exóticas,  e nem era como o nosso maracujá,  que é amarelo por fora, e custava 29 coroas duas unidades pequenas – algo em torno de 13 reais. Verdade seja dita, eu até como mais frutas aqui do que no Brasil: mais ameixas e nectarinas, muita tangerina na época do natal e todas as “berries” que você possa imaginar: cereja, mirtilo, oxicoco, amora, framboesa e morango. Porém, quando eu chegar no Brasil, quero manga espada e manga palmer, comer de escorrer pelos braços, fruta do conde, picolé de graviola e uma penca de banana prata. E mousse de maracujá, claro.

Banana Prata R$1,99

A post shared by Gabee Passos (@gabeepassos) on

Talvez por bebida alcóolica em geral ser o olho da cara, aqui não se tem o hábito de sentar num bar e ficar pesticando frituras gordurosas e deliciosas enquanto toma-se aquele chopp. Quando norueguês vai beber num bar ele come amendoim e outras nuts. Aos poucos até percebo a ideia de tapas ficando mais popular, mas ainda assim é bem diferente do nosso informal chopp e petisco. Pode ser os pastéis de feijoada do Mineiro, as empadas de camarão do Caranguejo ou qualquer um dos itens do cardápio da Kátia Barbosa, não tem sensação melhor de estar passeando e decidir parar num bar, pedir um chopp e dois pastéis, relaxar e não se preocupar se perder a hora do almoço. Esse conceito, entretanto, vai contra tudo o que os norugueses acreditam: planejamento, pontualidade e comida saudável. Depois de tanto petisco, tô achando que vou conciliar minha visita ao Brasil junto com a próxima edição do “Comida de Buteco”.

Essa, só quem é carioca vai entender: mate com limão e biscoito Globo na praia. E nem precisa explicar muito porque a combinação praia + sol + mate + biscoito globo é tão carioca quanto é gostosa. A matemática é clara. Esse itens sozinhos são bons, mas juntos eles se completam e formam o quadrilátero da perfeição do final de semana carioca. Aqui tem praia e as vezes tem sol. Minha mãe trouxe mate para mim e eu até poderia fazer biscoito globo. E num milagroso sábado de sol do ano eu poderia combinar todos esses elementos numa praia daqui, mas alguém acredita que ia ser a mesma coisa?

Ainda com as amigas, se atualizando nas novidades …

A post shared by Gabee Passos (@gabeepassos) on

Outra coisa que pode ajudar a vocês entenderem minha lista são minhas origens. Minha família veio do nordeste e se tem uma coisa que lembra minha infância e minhas férias na casa dos meus avós e primos, são as comidas nordestinas. Eu como farofa como os noruegueses comem batata! Tem dias que desejo um arroz branquinho recém feito com a feijoada da minha mãe. Sem falar na rabada que ela faz! Já tô salivando só de pensar. E não precisa nem ir até o nordeste para pensar em comida gostosa. Tem dias que sinto falta só daquele galeto com batata frita e molho à campanha. Claro que tem galinha aqui e eu poderia fazer um frango assado. Mas qual é a graça de fazer seu próprio frango assado?

Feijoada!!!

A post shared by Gabee Passos (@gabeepassos) on

Sempre impliquei com minha mãe porque ela cozinhava prum batalhão. Comida lá em casa podia não ser chique, mas nunca faltou. Mesa farta pra duas, quatro ou dez pessoas. Enquanto por aqui, já ouvi dizer que, antes da refeição, eles perguntam quantas batatas você que comer. Verdade ou não, nunca cheguei a ficar com fome, mas nunca vi uma mesa tão bem servida quanto nas festa de família. O mesmo vale para restaurantes. Onde já se viu um brunch com pouca comida? E qual a graça de ir num restaurante japonês e não ter rodízio? Será que preciso falar alguma coisa sobre nossas churrascarias? Com a cabeça de gado mais caro que o barril de petróleo, agora entendo esse frenesi gringo em torno do nosso churrasco. Dependendo da hora que chegar meu vôo, acho que prefiro passar no Porcão Rio’s antes de tudo (se bem que já ouvi dizer que eles não estão tão bem das perna não…)

Perdeu @loadbruno! De novo.

A post shared by Gabee Passos (@gabeepassos) on

Existem claro outras coisas, como chopp na mureta da Urca, comprar vinho na hora e aonde quiser, morder as coxinhas do meu sobrinho, ensinar minha sobrinha a fala “tante Gaby” (tia gaby em norueguês), tirar cochilo no sofá da minha mãe, pic-nic na Lagoa com as amigas, Stand Up Paddle no posto 6 e a lista continua sem fim.

Stand Up Paddle Crew! #standuppaddle

A post shared by Gabee Passos (@gabeepassos) on

Um ano morando na Noruega me ensinou, entre tantas coisas, duas em particular: comer na rua é extremamente caro para ser feito regularmente e, por isso, desenvolvi, e muito, minhas habilidades culinárias que hoje vão muito além do bife com arroz e feijão. Até quando o assunto é cozinha, eu posso dizer que saí da minha zona de conforto e, apesar de ter variado e aumentado meu livro particular de receitas, vai sempre continuar existindo pratos típicos que vão me lembrar pessoas, lugares e momentos  que por mais que eu repita aqui, vai faltar aquele temperinho que só encontro na casa da minha mãe, na mesa com meus amigos e naquele bafo do verão carioca.

This is Rio babe!!! #thisisrio #santa #casorinhojuetico

A post shared by Gabee Passos (@gabeepassos) on

Deixe estar Rio de Janeiro, e agora São Paulo também, que um dia eu chego de volta aí e vamos ter muito o que conversar.

Pode deixar nos comentários o que você sente ou sentiria falta, se fosse você. Tente não ficar no básico de família e amigos.  Fecha o olho e se imagine acordando naquele lindo dia de sol e que você é seu único compromisso. Pode ser qualquer coisa.

Gratulerer med dagen!

É assim que começamos o dia 17 de maio aqui na Noruega, desejando feliz aniversários para todos: gratulerer med dagen! “No dia 17 de maio, todos os noruegueses fazem aniversário” e com isso entendi que esse dia simboliza o renascimento da nação.

Nosso dia começou cedo, às 7:30 da manhã. Maquiagem, cabelo alto, muito fixador e camadas de roupas para aguentar a chuva torrencial que caía lá fora. Acho que se fosse no Rio o evento teria sido cancelado. Bjørn vestiu o terno e capote, antes de sairmos de casa, colocamos nossa sløyfe e estávamos prontos para comemorar o Dia Nacional da Noruega, ou o dia da Constituição.

O Café da Manhã

Mesa do café da manhã toda enfeitada.

Mesa do café da manhã toda enfeitada.

Seguimos para o café da manhã com a família norueguesa e encontramos uma casa toda decorada de azul e vermelha, as cores da bandeira, e velas, de flâmulas e tudo mais que você possa imaginar. Os noruegueses já gostam de decorar suas casas e a mesa de jantar e para o 17 de maio tudo parece ganhar um motivo especial. Nas roupas, todos muitos elegantes. As cores da nação mais uma vez faziam parte da vestimenta, ou uma peça de roupa, uma gravata, o vestido… e sempre a sløyfe. E muitas, muitas bunads, a roupa tradicional norueguesa. Na rua homens, mulheres, adolescentes, crianças e até bebês usam a roupa.

Mesa de doces.

Mesa de doces.

O café da manhã foi um bufê, que me arrependo de não ter tirado foto. Comida melhor do que de hotel. Pães, queijos, geleia, ovo, presuntos, salmão defumado, camarão, pastas e frutas, e tomates, e bolo de chocolate. Gente, era muita comida! E café, sucos, leite. E tudo isso com a família reunida, mesmo que não seja a sua, você consegue sentir a vibração e aproveitar o momento. Ficamos lá até umas quase 11h e não paramos de comer!

Todos com bunads!

Todos com bunads!

17.mai Toget

Foi quando seguimos para a cidade para a assistir o desfile. Sabe ano novo no Rio com todo mundo de branco seguindo o mesmo caminho em direção à praia? Como o centro da cidade fecha para carros, você só pode ir até certo ponto e depois tem que andar. Só que ao invés de roupa branca as pessoas usam bunads.

IMG_9377

No caminho para o centro.

Minha vontade era de para todo mundo e pedir para tirar foto. Vocês não consegui imaginar a variedade de bunads que existe, lindos e sofisticados, cores e modelos bem diferentes que não dá nem pra contar.

Minhas amigas norueguesas Karolina e Torrun.

Minhas amigas norueguesas Karolina e Torrun.

Um pesquisa rápida pela internet e o google me diz que para cada região há um roupa diferente, para homem e mulher, e a discussão fala de 200 à 500 diferentes tipos de bunads. Só na região de Hordaland, onde fica Bergen, são 19 diferentes tipos.

reprodução - BT.no

reprodução – BT.no

Li uma matéria do jornal Bergens Tidenda que traz a pergunta de qual bunad é o mais bonito, algumas das roupas aqui da região e o interessante dessa matéria é que eles falam que o bunad é mais um lembrança e um orgulho regional do que nacional.

Quando finalmente você “get over” de todas as roupas tradicionais diferentes e todas as crianças fofas usando-as e finalmente encontra um lugar para assistir o desfile tudo o que você consegue ver são guarda-chuvas.

IMG_9381

Aos poucos o tempo foi melhorando e apesar de não sabermos NADA sobre o desfile – quem desfilava, onde começava, onde terminava, onde era o melhor lugar para assistir – o que percebemos é que se você vai ver / participar do desfile não importa! Hoje é um dia de celebrar! O importante é estar na rua e apreciar o momento, comemorar com os amigos e familiares.

IMG_9380

IMG_9387 IMG_9395 IMG_9394

Festa na Cidade

Depois do desfile, as pessoas ficam na rua, tomando café, cerveja, passeando, e desejando gratulerer o dia todo.

IMG_9399IMG_9398

Soube também que um outro ponto de encontro após o desfile são as escolas locais. Elas viram mais um ponto de celebração, com jogos e brincadeiras. A festa na cidade foi até de noite com show de vários artistas, entre eles o cantor Sondre Lerche, e só terminou por volta de meia-noite com fogos de artifício.

Foto do facebook do cantor Sondre Lerche

Foto do facebook do cantor Sondre Lerche

Confesso que para mim e para o Bjørn o dia foi longo e terminou as 15h, quando voltamos para casa depois do desfile e aqui ficamos sem nem conseguir nos mexermos! Para o ano que vem, além do tempo melhor, esperamos que sabemos planejar melhor nosso 17.mai e poder aproveitar tudo o que o 17.mai pode no oferecer.

Mesmo não aproveitando tudo, foi tudo lindo e não sei se com o texto e com a foto vou conseguir expressar tudo o que foi esse dia.

Ha det bra!

O patriotismo norueguês e o 17 de maio.

Faltam exatos 5 dias para o dia mais importante da Noruega – o 17 de maio, ou o dia Nacional da Noruega. Esse dia é equivalente ao nosso dia da independência mas é na verdade  a comemoração da primeira Constituição norueguesa, escrita após um longo período de união com a Dinamarca. Isso foi lá em 1814 e desde então os noruegueses comemorar esse dia ao redor do mundo. Mesmo. Em algum lugar aí do Rio, por exemplo, com certeza vai ter um grupo se reunindo durante o café da manhã, bem vestidos, com faixas, bandeiras e fitas,  longe da terra natal mais felizes de estarem comemorando.

Continuar lendo

A Burocracia Norueguesa – emigrando para Noruega.

Todo mundo que vem para a Noruega, e quem mora aqui também, reclama da tal burocracia norueguesa. Minha tese é que os noruegueses reclamam porque nunca ouviram falar da burocracia brasileira. E os brasileiros – bem, a gente sempre reclamam de tudo – reclamam porque não existe ninguém com quem eles podem falar para acelerar o processo.

Continuar lendo

Norueguesas não sentem frio.

Vamos estabelecer dois fatos: 1) norueguesas não sentem frio e 2) norueguesas, em sua maioria, tem perna fina.

Tendo esclarecido isso posso afirmar que é quase impossível achar uma calça jeans pra mim. Porque além de brasileira e possuir um darrière avantajado, comparando mais com as nórdicas do que com as brasileiras, sou gordinha, não com muito orgulho, mas com menos vergonha do que deveria.

Devo ser um caso raro de gordinha que sente frio, mas sinto, e já sentia no Rio de Janeiro, com mínima de 24ºC. Então me ensinaram o poder das camadas e da lã. Bem, vocês podem imaginar o que camadas de lã adicionam ao meu perfil. O resultado é a completa frustração ao tentar achar uma calça jeans, porque além de vestirem roliças coxas elas precisam também cobrir as, no plural mesmo, meias-calças.

Pra piorar eu não estou acostuma a comprar em lojas aqui, a numeração é diference, os modelos também, isso torna a procura um pouco mais exaustiva. No Brasil eu já sabia o que ficava bom, em que lojas tinham modelos que achava que me serviam melhor, então, mesmo sendo gordinha de perna grossa, eventualmente achava alguma coisa.

Aqui você nas lojas mais “populares” Cubs, H&M, Lindex, os modelos se resumem a skinny cós baixo, skinny cós alto, super skinny, shaping skinny regular fit, super skinny super cós baixo…. e isso é cópia do que esta escrito no site da H&M Norge. Sem ser dramática de mais, existe dois tipo que acho que daria mas que nunca achei o meu tamanho na loja física. Isso porque ainda tenho certa compostura e me recuso a experimentar o jeans de mãe. Os outros pode não saber, mas EU vou saber.

Tudo isso pra dizer que me identifiquei, imensamente, como se aquela fosse eu, com um trecho do livro  “Not That Kind of a Girl” da Lena Duhan, escritora americana, famosa por escrever e atuar na série da HBO, Girls. Ela diz assim:

“As calças nunca me servem, a menos que eu vá na seção de maternidade, então compro basicamente vestidos sem cortes e casacos de tricô engraçados*”.

E é isso que eu tenho vestido, muitas camadas de meias-calças, vestidos e por enquanto são sweaters normais, mas tem cada um que quero comprar:  de natal, coloridos, de texturas diferentes, pq afinal é só isso o que as pessoas vão ver do meu outfit.

Ainda estou no primeiro capítulo, mas a introdução do livro, ou quase a justificativa que ela dá porque a história dela é importante de ser contata e ouvida já vale muito a indicação. É mais sobre como você pode aprender como os erros de uma pessoa comum que faz besteiras e passa por muitas, muuuuitas no caso dela, situações embaraçosas. E acredito muito na desmistificação de modelos atrizes e personagens famosos e apesar de algum jeito ter glamour na vida dela, porque agora ela é famosa, granhou emmys e tudo mais, é muito fácil de se relacionar com as coisas que ela conta. De novo, estou no primeiro capítulo, mas como falei para minhas amigas, ela cita Angela Chase, não dá pra ficar ruim. Fica a dica de presente de natal pra vocês o livro dela.

not_that_kind_of_girl_by_lena_dunham_WEB

* – estou lendo o livro em inglês, então essa tradução foi minha, livre.

Vídeo

O dia mais feliz da minha vida.

E como eu vim morar com um norueguês na Noruega, uma das exigências do meu pai era que nós nos casássemos antes de virmos, precisávamos casar oficialmente (já moravamos juntos fazia dois anos) para facilitar o processo de imigração. E esse dia foi um dos mais felizes da minha vida. Não porque estávamos casando, não porque esse dia simbolizaria o início da nossa família e muito menos porque estávamos formalizando nossa promessa de amor eterno. Tudo isso já existia e acredito que todos nossos amigos e familiares já sabiam disso. Vou tentar explicar porque esse dia foi tão especial.

Bjørn arrumou um trabalho na Noruega, yada yada yada, e em dois meses a gente estava com quatro malas e cuia dentro do avião. Nesses 60 dias tivemos que correr contra o tempo para juntar um monte papelada, e dinheiro, para dar entrar com o pedido de casamento no cartório. Confesso que fiquei muito frustrada com a forma que tudo estava acontecendo. Te dou um dado? 73% das mulheres sonham com sua festa de casamento. Dentre essas, 93% sonham com a festa de casamento desde o dia em que foram, de fato, pedidas em casamento. Eu, fazendo parte dessa estatística, já tive pensado e repensando aonde queria me casar, quem eu ia convidar, como ia ser meu vestido, a decoração… Com apenas dois meses pra planejar, eu sabia que não ia poder ter nada disso. Pelo tempo e pelo dinheiro. Precisávamos pagar rescisão de contrato de aluguel, passagens de avião, o casamento no cartório, inúmeros documentos que precisavam ser traduzidos oficialmente… qualquer gasto extra era impensável. Até a lua de mel seria adiada.

O que eu ainda não contei, eu acho, é que o noivo já estava na Noruega, e que ia voltar só por dois motivos:  1) claro, pra casar comigo; 2) Para o casamento do irmão dele, no qual seríamos padrinho e madrinha. Com pouco tempo de trabalho, ele não poderia tirar muitos dias de folga pra vir fazer tudo isso. Ou seja, ele chegava na quinta a noite, assinaríamos os papéis no cartório na sexta de manhã e no sábado seria o casamento do irmão dele e, finalmente domingo, embarcaríamos rumo à Escandinávia.

Teimosa e orgulhosa como sou, decidi que então não teria nada também. Não dava pra ser do jeito que eu queria comemorar, então Bjørn ia ficar me devendo um festa bem linda depois, com todos os meus amigos, um vestido bem caro e tudo mais que eu quisesse. Com latas atrás do carro e lua de mel!

E assim começa a história do dia mais feliz da minha vida.

Minhas super amigas com visão além do alcance, me encurralaram num canto e decidiram que iam fazer alguma coisa pra gente e para eu para com essa babaquice bobeira de não querer ter festa. Afinal de contas elas também queriam se despedir da gente e de participar desse dia.

Foram necessárias algumas sessões de terapia até eu aceitar que eu ia ter uma festa de casamento, que não seria do jeito que eu tanto sonhei, e que eu não ia poder fazer nada do jeito que eu queria… depois de muito espernear eu aceitei no meu coração.

E foi lindo. Todo mundo ajudou, cada um fez um pouco aqui e um pouco ali e ficou igual aqueles casamentos em casa que você vê nas revistas. E foi assim que eu me senti: como se meu casamento tivesse saído da revista. Eu adoro dizer isso, mas é verdade, veio gente do mundo todo. Veio até gente da África. E acho que chorei mais quando vi um dos meu melhores amigos ali na porta do cartório, vindo diretamente de Nova York, só pro casamento do que de fato no casamento. E a festa durou oito horas: teve cerimônia, teve flores, teve buquet, teve bolo, teve lembrancinha, teve Paçoquita, teve Polaroid, teve garçom que também era cinegrafista e filmou a cerimônia… mas não, infelizmente não pude chamar todo mundo que eu queria, mas de alguma forma, foi tudo… PERFEITO.

Antes que eu fique mil horas falando de como tudo foi lindo e maravilhoso, tem uma pequena amostra aqui.


Since I was coming to live with a Norwegian in Norway, we needed to officially marry (because we were already living together for the past two years) for the immigration process. And that day was one of the happiest of my life. Not because we were getting married, not because that day symbolizes the beginning of our family and a lot less because we were formalizing our promise of eternal love. All this was already there and I believe that all our friends and family knew that. I’ll try to explain why this day was so special.

Bjørn got a job in Norway, yada yada yada, and in two months we were inside the aircraft. In those 60 days we had to race against time to put together a lot paperwork, and money, really get married. I confess I was very frustrated with how everything was happening. Scientific research says that 73% of women dream about their wedding party. Among these, 93% dream of a wedding party since the day they were in fact proposed. I wasn’t any different. I had been thinking about where I wanted to marry, who I was going to invite, how would be my dress, the decor … With only two months ahead to plan, I knew it would not be able to have any of that. We had to save money because of the moving … any extra expense was unthinkable. Even the honeymoon would be delayed.

What I have not told you is that the groom was already in Norway, and would return only for two reasons: to marry me and for his brother’s wedding, which we would be godparents. Being new at work, he could not take many days off. So he arrived Thursday night, we would sing the papers on Friday morning and on Saturday was the brother’s wedding and finally, Sunday  we would fly towards Scandinavia.

Stubborn and proud as I am, I decided that I should not have anything. If it could not be the way I wanted to celebrate, then it wouldn’t. Bjørn would owe me a very beautiful party later with all my friends, a very expensive dress and everything else I wanted. With cans behind the car and a honeymoon!

And so begins the story of the happiest day of my life.

My super friends, cornered me and decided they were going to do something for us and it was for me to stop being silly about  not wanting to have a party. After all, they also wanted to say goodbye and be part of that day.

Few sessions of therapy were necessary until I accept that I was going to have a wedding party, and it would not be the way I dreamed so much about, and I was not going to do anything the way I wanted.

And it was beautiful. Amazing. Everyone helped, everyone helped a little here and a little there and it looked like those weddings at home you see in magazines. And that was how I felt: as if my marriage was on the magazine. I love to say it, because it’s true, people came from all over the world. There were people coming from Africa. And I think I cried more when I saw one of my best friends, coming directly from New York just for the wedding than the actual marriage. And the party lasted eight hours: it had a ceremony, flowers, a bouquet, cake, souvenirs, Paçoquita, Polaroid, and a waiter who was also a videomaker and filmed the ceremony … but no, unfortunately, I could not invite everyone I wanted, but somehow, everything was … PERFECT.

Enought with the writing, here it is small sample here.